Novos autores: Jim Anotsu e José Roberto Vieira
A Editora Draco também está investindo em novos autores - muitas vezes inéditos no formato impresso ou com participação apenas em poucas antologias. Curiosamente, desmentindo uma tese de que os autores brasileiros de Ficção Especulativa tendem a concentrar seus esforços em contos e noveletas - formatos mais curtos, dois desses escritores revelados por Erick Santos surgem apresentando roman...
Antologia Letra e Video – Autora e Organizadora Ana Cristina Rodrigues
A tirana vitalícia, coordenadora implacável, humana multitarefa e escritora Ana Cristina Rodrigues é a organizadora da antologia Letra e Video, a ser lançada pela Editora Draco ainda esse ano. "O projeto nasceu de dois pontos mais ou menos distintos: os minicontos musicais da Fábrica dos Sonhos, no qual uma música era tema de um desafio entre os membros da Fábrica, e da minha própria ne...
Editora Draco anuncia lançamentos: Eric Novello e Estevão Ribeiro
Conforme noticiado no blog de Tibor Moricz, a editora Draco vem com vários títulos novos, entre antologias e romances. A diversidade de temas e títulos se reflete também no perfil dos autores, que vão de iniciantes promissores a veteranos de talento comprovado. Um dos autores que já vem caminhando na senda literária e que agora fecha contrato com a Draco é Estevão Ribeiro. O autor capi...
Fábrica dos Sonhos fecha parceria com a Editora Draco
A Editora Draco, capitaneada por Erick Santos, acaba de aceitar a proposta de parceria da Fábrica dos Sonhos. "Agora, é partir para publicar mesmo", diz a coordenadora e tirana vitalícia da Fábrica dos Sonhos, Ana Cristina Rodrigues. "Temos muito material pronto, inclusive coletâneas com vários grandes autores, além de uma surpresa especial." Ao ser perguntada sobre quais seriam as colet...

FOME- TIBOR MORICZ (RESENHA DE ANA CAROLINA SILVEIRA)

  É o costume, tanto na comunidade Escritores de Fantasia quanto na Ficção Científica, que aquele que publique um livro, caso deseje fazer propaganda deste, deve disponibilizar um exem ...Read More

Novos autores: Jim Anotsu e José Roberto Vieira

Posted By: anacrisrodrigues on 05/02/2010 in Notícias - Comments: 1 Comment »

A Editora Draco também está investindo em novos autores – muitas vezes inéditos no formato impresso ou com participação apenas em poucas antologias. Curiosamente, desmentindo uma tese de que os autores brasileiros de Ficção Especulativa tendem a concentrar seus esforços em contos e noveletas – formatos mais curtos, dois desses escritores revelados por Erick Santos surgem apresentando romances. E saem do lugar comum do cenário nacional com temas e propostas arrojadas.

José Roberto Vieira é o autor de Baronato de Shoah, romance que foi sendo escrito ao mesmo tempo em que o escritor comentava sobre a experiência na internet. A gênese do projeto é bastante curiosa.

“ Foram dois processos que deram origem ao livro. Primeiro foi um pedido da minha namorada, que queria um poema. Como não consegui pensar em nada, comecei a escrever um conto sobre um soldado que voltava para casa em busca da noiva. Uma semana depois, comecei a escrever um segundo conto, sobre um Paladino que chegava a um vilarejo habitado por almas. Por algum motivo, achei que ambos se completavam, o que era um erro meu. Deste erro elaborei os primeiros conceitos do Baronato e iniciei uma terceira história, que se tornou o livro.”

O livro tem chamado muita atenção da comunidade steampunk nacional, porém o próprio criador explica melhor o que o leitor pode esperar deBaronato de Shoah.

“O Baronato de Shoah é um romance de aventura que transita entre a fantasia sword and sorcery e o steampunk, flertando com ambos num cenário permeado de magia e tecnologia estranha.”

E o flerte se dá também com a cultura pop. Citações de músicas atuais estão espalhadas pelo texto e um leitor mais atento – ou antenado – vai conseguer reconhecer várias referências. Para José Roberto, esse detalhe vem do fato do autor em si ser sempre fruto do seu meio.

“Escritores trazem consigo uma boa bagagem cultural, na maioria das vezes. É praticamente impossível não deixar isto influenciar sua obra. Foi o que aconteceu no Baronato, elementos que formam a minha cultura pessoal estão refletidas na obra.”

Mas não descarta a influência da sua vivência acadêmica na construção desse aspecto do seu trabalho.

“Eu passei muito tempo analisando obras de autores consagrados pela Academia e sendo ensinado que este tipo de referência torna a obra mais rica, porque ela dialoga com outras obras. Este diálogo é importante na literatura, pois cria uma teia entre as obras, passando ao leitor uma série de referências que influenciaram o escritor naquele momento. Então, quando o leitor vê uma citação ou algo parecido em uma obra, ele tem sua curiosidade atiçada para procurar as demais.”

E foi de uma verdadeira babel referencial que surgiu o romance de um outro autor iniciante da Draco. Jim Anotsu fala do melting pot que levou a Annabel e Sarah.

Três anos atrás, eu havia tentado escrever um faroeste épico com dragões e outros elementos de uma típica fantasia quase-medieval quando percebi que o resultado final era tão medíocre quanto as coisas que eu costumo cozinhar. Eu fiquei bem decepcionado com aquilo. Foi quando eu vi Era uma vez na América do Leone enquanto lia Visions of Cody do Kerouac e pensei: ‘Caramba!, e se Quentin Tarantino escrevesse um conto de fadas com personagens tão vagabundos-iluminados quanto os beatniks?’ A premissa básica Noir+Beatnik+Contos de fadas nasceu aí. Mas ainda não era o suficiente. Foi quando eu encontrei o poema Annabel Lee de Poe e descobri que ali estava a personagem que eu queria. Mas só resolvi colocar a história no papel porque no fim é um presente para uma garota.”

Mais um ponto em comum entre os dois livros. No caso de Jim, a musa inspiradora já aprovou o resultado.

“A pobre garota foi obrigada a ler todas as versões da história. Mas o bom foi que ela gostou.”

Porém, enquanto José Roberto Vieira é relativamente conhecido no fandom de Fantasia, Jim é uma incognita que pouco revela sobre si.

“Basicamente, sou uma pessoa que adora ficar a toa, tocar guitarra e às vezes escrever alguma coisa. Na maior parte do tempo eu sou professor e durante o resto das tardes e noites, eu costumo cuidar do meu cão, um labrador desengonçado e bagunceiro chamado Humbug. Também ando pelos sebos procurando livros que não lerei tão em breve.”

E assim como O Baronato de Shoah o primeiro livro de Jim é bem dificil de classificar.

“Eu costumo dizer o mesmo que Terry Pratchett disse para definir histórias dessa espécie: doorway fantasy. O tipo de história em que você abre uma porta, guarda-roupa, espelho e está nesse mundo do fantástico. Eu costumo pensar que histórias como Filhos de AnansiDeuses Americanos estão mais para fantasia urbana do que Annabel e Sarah.”

Antologia Letra e Video – Autora e Organizadora Ana Cristina Rodrigues

Posted By: anacrisrodrigues on 21/01/2010 in Notícias - Comments: No Comments »

A tirana vitalícia, coordenadora implacável, humana multitarefa e escritora Ana Cristina Rodrigues é a organizadora da antologia Letra e Video, a ser lançada pela Editora Draco ainda esse ano.

“O projeto nasceu de dois pontos mais ou menos distintos: os minicontos musicais da Fábrica dos Sonhos, no qual uma música era tema de um desafio entre os membros da Fábrica, e da minha própria necessidade de divulgar contos mais longos que também nasciam da música. Sempre, sempre gostei. Boa parte dos meus escritos nasceram de momentos escutando música.”

Como exemplo, ela aponta três contos já publicados.

“São contos que até tiveram boa recepção da crítica, como ‘O templo do amor’, presente na Portal Neuromancer e na Paradigmas 1, ‘Carta a Monsenhor’, inspirado por uma musica do Blackmore’s Night e que foi publicado na Paradigmas 2, além de ‘Como nos tornamos fogo’, que está  em AnaCrônicas.”

A iniciativa de chamar outros autores veio da sua sempre presente ideia da divulgação coletiva da Ficção Especulativa brasileira.

“Um livro que o André Vianco, a Nazarethe Fonseca, o Fabio Fernandes ou o Roberto Causo vendam não é bom só para eles ou para a editora que os publica. É bom para todos os demais porque cria mercado. Alguém que lê todos os livros da Nazarethe e do Vianco vai procurar outros autores nacionais, vai ter sua curiosidade despertada. O público que lê um conto meu vai no meu blog, mas se eu colocar em um site com contos de outros autores, é bem provável que ele fique mais um tempo navegando ali e descubra os meus companheiros de site. Dali para procurar mais coisas de novos escritores é um pulo.”

O lançamento da antologia, que surpreendeu leitores e autores, estava sendo acalentado há tempos.

“O acervo fonográfico-literário do site é impressionante, tem histórias ali que merecem ser transpostas para outras mídias.”

O processo de seleção, segundo a organizadora, tentou ser o mais  justo possível.

“Escolhi os contos que receberam mais comentaristas, mas também os que mais pegaram o espírito do projeto. Claro que nisso, muitos autores seriam repetidos, então ficou o conto mais comentado de cada participante. Ao fim e ao cabo, acho que ficou uma seleção muito representiva do trabalho do site. Infelizmente, ficou muita gente boa fora. Mas o projeto não terminou.”

A coordenadora dá pistas sobre o futuro do site.

“Fechamos uma parceria com a rede social aoLimiar e todo o conteúdo do Letra e Video será migrado para um novo endereço, mais dinâmico, em breve. A partir daí, voltaremos a publicar textos novos e aceitar originais.”

Quanto a possíveis críticas à presença do seu conto entre os escolhidos, a autora usa de sua ironia habitual.

“Olha, criticar vão criticar mesmo. Vão dizer que só entraram pessoas ligadas a mim ou que eu favoreci fulano e sicrano. Nada que me faça perder uma noite de sono. Meu conto foi um dos mais comentados e por isso vai entrar.”

O conto selecionado foi ‘Finisterra’, uma história sobre navegadores e o fim do mundo.

“Como ficou claro, é um trecho de algo maior, bem maior aliás. É a introdução ao meu romance também chamado Finisterra.”

Ao ser perguntada se o romance também teria sido inspirado pela música, do grupo português de metal Moonspell, a autora reflete.

“É meio complicado de dizer, porque Finisterra está dentro de mim  faz muito tempo. É meu livro eterno – talvez por isso esteja demorando tanto a sair – e reflete muita coisa dentro de mim. Minha essência portuguesa, por assim dizer. E o Moonspell é tão parte disso quanto Fernando Pessoa, Camões, Pero Vaz de Caminha, Julio Dinis, Amalia Rodrigues…”

Porém, o conto postado realmente nasceu da música.

“É sobre estar vivo no fim do mundo. Não no Apocalipse, que é uma tragédia, mas no fim da terra mesmo, do espaço físico. É ter o nada em cima, embaixo e aos seus lados… e de repente o nada vem e ataca.”

A versão a ser publicada será bem diferente do que está no site.

“Com certeza, o conto será ampliado, com aspectos que foram apontados pelos leitores e mesmo com coisas que acrescentei no romance posteriormente. Valerá a pena relê-lo impresso.”

E os demais autores?

“Aos pouquinhos, eles vão aparecendo por aqui.”

Editora Draco anuncia lançamentos: Eric Novello e Estevão Ribeiro

Posted By: anacrisrodrigues on in Notícias - Comments: No Comments »

Conforme noticiado no blog de Tibor Moricz, a editora Draco vem com vários títulos novos, entre antologias e romances. A diversidade de temas e títulos se reflete também no perfil dos autores, que vão de iniciantes promissores a veteranos de talento comprovado.

Um dos autores que já vem caminhando na senda literária e que agora fecha contrato com a Draco é Estevão Ribeiro. O autor capixaba, que lançou em 2009 seu primeiro romance, é mais conhecido por seu trabalho em quadrinhos. Entre suas criações de maior destaque estão o justiceiro Tristão e Hector e Afonso, da tira Os passarinhos. Premiado e reconhecido por seu mérito na arte sequencial, Estevão fala sobre os motivos de ter escrito um romance de terror:

“Acho que é a evolução de um trabalho. Eu escrevia sobre coisas tristes, o terror é outra forma de lidar com esse tema, porém colocando mais emoção e ação”. A tristeza foi o tema da sua antologia Contos tristes, em que pequenas histórias  - em prosa e em quadrinhos – tratavam de forma poética da tristeza humana.

Porém, como o autor mesmo explica ao falar da trama, o livro pouco terá de melancólico.

“O livro trabalha com o sobrenatural por meio da tecnologia: maldições que podem ou devem ser passadas adiante, condenar uma pessoa a morte num clique do mouse… O protagonista é um hacker que faz isso sem saber, condena pessoas a morte e é assombrados por visões. Ele tenta salvá-los, mas como impedir uma maldição?”

E na contramão da onda vampirica, o escritor avisa que,  apesar do prefácio de Nazarethe Fonseca, os dentuços não estarão presentes.

“Tem computador, tem gente decapitada, carbonizada, pombos, ex-namorada… não, não tem vampiros não!”

E qual o motivo do mistério em torno do nome?

“Porque, depois de saber, você será obrigada a passar para sete pessoas.”

O lado mais leve do autor pode ser admirado nas tirinhas cômicas  ’Os Passarinhos’, cuja primeira coleção está sendo lançada dia 25/01 no Rio de Janeiro e dia 20/02 em São Paulo.

Outro escritor que vem adicionar a sua experiência à inovação da Editora Draco é o carioca exilado em terras paulistanas Eric Novello. Roteirista de formação, o autor de Histórias da noite carioca e Dante, o Guardião da Morte surge com um romance fix-up de Fantasia Urbana, gênero pouco praticado no Brasil. O autor explica sua escolha.

“Queria usar magos em cenários de grandes metrópoles, misturar um pouco as coisas. Fiz um projeto para publicar no site, mas parei no meio. Mais tarde, descobri que era um gênero com grande sucesso de vendas e muitos escritores no exterior e me reapaixonei pela idéia.”

Para Eric, a Fantasia Urbana tem como alcançar um grande público no Brasil.

“A fantasia já provou que tem apelo comercial, vide os zilhões de livros que ocupam a parte de infanto-juvenis das nossas livrarias. É questão de saber apresentar a idéia para os leitores, mostrar essa visão contemporânea da fantasia. Lá fora, grande parte do sucesso se deve à postura das protagonistas. Saem as sofredoras vítimas do destino e entram mulheres que detonam seus inimigos. No caso, inimigos sobrenaturais. Mal vejo a hora de ler algo do tipo 100% nacional.”

Falando um pouco sobre seu livro, o autor conta a origem do título e descreve os personagens.

“Neon Azul é o nome de um inferninho. Quando fiz escola de cinema, passava em frente a um inferninho com um toldo negro delineado com neon azul. Da porta, só via uma escada para o segundo andar, com as mesmas lâmpadas. Durante um ano e meio imaginei o que se passava lá dentro e escrevi o livro. Cada capítulo acompanha um personagem e sua relação com o Neon Azul, mas a trama é toda entrelaçada. A fantasia entra de forma sutil. O dono do bar é o capeta, o gerente é um homem que nao dorme nunca. O advogado ganhou de presente um cramulhão na garrafa. O pianista, quando toca Wagner, traz de volta espíritos da época de Hitler. Mas o foco mesmo do livro é a solidão daqueles que vivem cercados de gente, uma solidão muito comum para quem curte vida noturna.”

Perguntado sobre uma possível ligação entre Neon Azul e Histórias da Noite Carioca, o autor faz ressalvas.

“Sai o humor e entra o lado mais sombrio do ser humano. O próprio personagem Lucas Moginie do Histórias está lá! Só que numa versão mais embriagada e decadente. Ele está dançando no Neon Azul quando dá de cara com uma personagem de seus livros.”

Uma curiosa coincidência é que Eric Novello fez a leitura crítica do livro de Estevão Ribeiro.

Fábrica dos Sonhos fecha parceria com a Editora Draco

Posted By: admin on 20/01/2010 in Notícias - Comments: No Comments »

A Editora Draco, capitaneada por Erick Santos, acaba de aceitar a proposta de parceria da Fábrica dos Sonhos.

“Agora, é partir para publicar mesmo”, diz a coordenadora e tirana vitalícia da Fábrica dos Sonhos, Ana Cristina Rodrigues. “Temos muito material pronto, inclusive coletâneas com vários grandes autores, além de uma surpresa especial.”

Ao ser perguntada sobre quais seriam as coletâneas, a escritora responde: “Bom, projetos são muitos, mas posso adiantar agora que a Gastronomia Phantástica e uma edição especial com o melhor do Letra e Video estão confirmadíssimos. Os nomes serão revelados em breve.”

E quanto à surpresa?

“É algo que apesar não ser inédito no Brasil, nunca foi abordado com o enfoque que vamos dar. Isso é tudo que posso dizer.”

Sobre novas coletâneas e recebimento de originais, a escritora foi taxativa.

“Primeiro, precisamos colocar o material já pronto e ver como ele vai ser recebido pelo público. Só depois, poderemos traçar planos e estabelecer uma política de recebimento de originais.”

Dentro da proposta de parceria, a Fábrica dos Sonhos se comprometeu a divulgar o catálogo da Draco em seus dispositivos web.

FOME- TIBOR MORICZ (RESENHA DE ANA CAROLINA SILVEIRA)

Posted By: anacrisrodrigues on 08/03/2009 in Livros Nacionais, Resenhas - Comments: 3 Comments »

 

É o costume, tanto na comunidade Escritores de Fantasia quanto na Ficção Científica, que aquele que publique um livro, caso deseje fazer propaganda deste, deve disponibilizar um exemplar para sorteio entre os demais membros.

Em novembro do ano passado, ocorreu o lançamento do livro de Tibor Moricz (que, apesar do nome, é um autor brasileiro). Como a premissa me interessou, resolvi arriscar minha sorte no sorteio – e qual não foi a surpresa ao ser escolhida?

Fome não é o livro de estreia de seu autor, tampouco um romance. É um conjunto de contos, interligados entre si mas não co-dependentes, que se passam em um futuro pós-apocalíptico, onde por alguma razão a comida do mundo acabou e os poucos sobreviventes precisam se virar como podem. É um livro sobre o mais básico dos instintos: a sobrevivência. Também o é sobre a mais básica das necessidades: a alimentação.

Então, veremos que o homem é o lobo do homem – em todos os sentidos. O livro traz contos que partem para o choque, para a agressão, para o repugnante.

Só que aqui entra a minha opinião: como existem apenas o instinto, a selvageria e a loucura, como qualquer resquício de sociedade se perdeu e sobraram apenas indivíduos solitários e famintos, não consigo enxergá-los como seres humanos. São, isso sim, bichos dispostos a sobreviverem. E para bichos em franca luta pelo pão de cada dia, o que são tabus ou choques?

É diferente da situação de um maníaco que gosta de comer criancinhas (nos dois sentidos de “comer”). Neste caso, onde existe uma sociedade e consequentes regras de convivência e do que é socialmente tolerável ou não, é uma atitude monstruosa e execrável. Outro exemplo, o caso do Milagre dos Andes, onde os sobreviventes precisaram comer os amigos mortos para sobreviver. É o desespero de uma situação traumática e extrema, uma luta pela sobrevivência e para voltar à sociedade dos comuns.

Agora, quando já não existe sociedade e humanidade, que diferença faz? É chocante jogar dois vermes famintos numa bacia e ficar esperando até que um devore o outro? É cruel, mas não envolve nenhum tabu ou sentimento. Ou, mais próximo da realidade do livro, algum zumbi canibal. Gera empatia? Pois então.

Sobre os contos, percebe-se que o autor tem um excelente domínio da narrativa. Os dois primeiros são os mais fortes, onde o autor coloca as cartas na mesa e demonstra o que virá a partir dali. Só que o desenrolar dos contos começa a se tornar repetitivo: são as histórias de diferentes sobreviventes, mas que partem do mesmo lugar e chegam a conclusões semelhantes. Começa a se tornar mais do mesmo.

Outro ponto negativo foi o choque pelo choque. Um dos contos específico, chamado O Observador, me soou especialmente repugnante. Praticamente um round house kick no estômago.

Outra característica desabonadora – culpa não do autor, mas da editora – é que o livro se desfez durante a leitura. Mau, muito mau.

Mas há coisas interessantes. Por exemplo, em um livro de contos fechados a leitura pode ser fracionada. Um conto hoje, outro amanhã, até mesmo intercalados com outro livro.

Outro ponto positivo é a do autor aventurar-se em um tema assumidamente polêmico, com o poder de gerar as mais díspares reações. Precisamos disso, de pessoas que se arrisquem a escrever, de pessoas que matem a fome de leitura com novidades.