A Editora Draco também está investindo em novos autores – muitas vezes inéditos no formato impresso ou com participação apenas em poucas antologias. Curiosamente, desmentindo uma tese de que os autores brasileiros de Ficção Especulativa tendem a concentrar seus esforços em contos e noveletas – formatos mais curtos, dois desses escritores revelados por Erick Santos surgem apresentando romances. E saem do lugar comum do cenário nacional com temas e propostas arrojadas.
José Roberto Vieira é o autor de Baronato de Shoah, romance que foi sendo escrito ao mesmo tempo em que o escritor comentava sobre a experiência na internet. A gênese do projeto é bastante curiosa.
“ Foram dois processos que deram origem ao livro. Primeiro foi um pedido da minha namorada, que queria um poema. Como não consegui pensar em nada, comecei a escrever um conto sobre um soldado que voltava para casa em busca da noiva. Uma semana depois, comecei a escrever um segundo conto, sobre um Paladino que chegava a um vilarejo habitado por almas. Por algum motivo, achei que ambos se completavam, o que era um erro meu. Deste erro elaborei os primeiros conceitos do Baronato e iniciei uma terceira história, que se tornou o livro.”
O livro tem chamado muita atenção da comunidade steampunk nacional, porém o próprio criador explica melhor o que o leitor pode esperar deBaronato de Shoah.
“O Baronato de Shoah é um romance de aventura que transita entre a fantasia sword and sorcery e o steampunk, flertando com ambos num cenário permeado de magia e tecnologia estranha.”
E o flerte se dá também com a cultura pop. Citações de músicas atuais estão espalhadas pelo texto e um leitor mais atento – ou antenado – vai conseguer reconhecer várias referências. Para José Roberto, esse detalhe vem do fato do autor em si ser sempre fruto do seu meio.
“Escritores trazem consigo uma boa bagagem cultural, na maioria das vezes. É praticamente impossível não deixar isto influenciar sua obra. Foi o que aconteceu no Baronato, elementos que formam a minha cultura pessoal estão refletidas na obra.”
Mas não descarta a influência da sua vivência acadêmica na construção desse aspecto do seu trabalho.
“Eu passei muito tempo analisando obras de autores consagrados pela Academia e sendo ensinado que este tipo de referência torna a obra mais rica, porque ela dialoga com outras obras. Este diálogo é importante na literatura, pois cria uma teia entre as obras, passando ao leitor uma série de referências que influenciaram o escritor naquele momento. Então, quando o leitor vê uma citação ou algo parecido em uma obra, ele tem sua curiosidade atiçada para procurar as demais.”

E foi de uma verdadeira babel referencial que surgiu o romance de um outro autor iniciante da Draco. Jim Anotsu fala do melting pot que levou a Annabel e Sarah.
“Três anos atrás, eu havia tentado escrever um faroeste épico com dragões e outros elementos de uma típica fantasia quase-medieval quando percebi que o resultado final era tão medíocre quanto as coisas que eu costumo cozinhar. Eu fiquei bem decepcionado com aquilo. Foi quando eu vi Era uma vez na América do Leone enquanto lia Visions of Cody do Kerouac e pensei: ‘Caramba!, e se Quentin Tarantino escrevesse um conto de fadas com personagens tão vagabundos-iluminados quanto os beatniks?’ A premissa básica Noir+Beatnik+Contos de fadas nasceu aí. Mas ainda não era o suficiente. Foi quando eu encontrei o poema Annabel Lee de Poe e descobri que ali estava a personagem que eu queria. Mas só resolvi colocar a história no papel porque no fim é um presente para uma garota.”
Mais um ponto em comum entre os dois livros. No caso de Jim, a musa inspiradora já aprovou o resultado.
“A pobre garota foi obrigada a ler todas as versões da história. Mas o bom foi que ela gostou.”
Porém, enquanto José Roberto Vieira é relativamente conhecido no fandom de Fantasia, Jim é uma incognita que pouco revela sobre si.
“Basicamente, sou uma pessoa que adora ficar a toa, tocar guitarra e às vezes escrever alguma coisa. Na maior parte do tempo eu sou professor e durante o resto das tardes e noites, eu costumo cuidar do meu cão, um labrador desengonçado e bagunceiro chamado Humbug. Também ando pelos sebos procurando livros que não lerei tão em breve.”
E assim como O Baronato de Shoah, o primeiro livro de Jim é bem dificil de classificar.
“Eu costumo dizer o mesmo que Terry Pratchett disse para definir histórias dessa espécie: doorway fantasy. O tipo de história em que você abre uma porta, guarda-roupa, espelho e está nesse mundo do fantástico. Eu costumo pensar que histórias como Filhos de Anansi e Deuses Americanos estão mais para fantasia urbana do que Annabel e Sarah.”
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Muito bom o artigo! Estou empolgado para ler os dois romances!