A tirana vitalícia, coordenadora implacável, humana multitarefa e escritora Ana Cristina Rodrigues é a organizadora da antologia Letra e Video, a ser lançada pela Editora Draco ainda esse ano.
“O projeto nasceu de dois pontos mais ou menos distintos: os minicontos musicais da Fábrica dos Sonhos, no qual uma música era tema de um desafio entre os membros da Fábrica, e da minha própria necessidade de divulgar contos mais longos que também nasciam da música. Sempre, sempre gostei. Boa parte dos meus escritos nasceram de momentos escutando música.”
Como exemplo, ela aponta três contos já publicados.
“São contos que até tiveram boa recepção da crítica, como ‘O templo do amor’, presente na Portal Neuromancer e na Paradigmas 1, ‘Carta a Monsenhor’, inspirado por uma musica do Blackmore’s Night e que foi publicado na Paradigmas 2, além de ‘Como nos tornamos fogo’, que está em AnaCrônicas.”
A iniciativa de chamar outros autores veio da sua sempre presente ideia da divulgação coletiva da Ficção Especulativa brasileira.
“Um livro que o André Vianco, a Nazarethe Fonseca, o Fabio Fernandes ou o Roberto Causo vendam não é bom só para eles ou para a editora que os publica. É bom para todos os demais porque cria mercado. Alguém que lê todos os livros da Nazarethe e do Vianco vai procurar outros autores nacionais, vai ter sua curiosidade despertada. O público que lê um conto meu vai no meu blog, mas se eu colocar em um site com contos de outros autores, é bem provável que ele fique mais um tempo navegando ali e descubra os meus companheiros de site. Dali para procurar mais coisas de novos escritores é um pulo.”
O lançamento da antologia, que surpreendeu leitores e autores, estava sendo acalentado há tempos.
“O acervo fonográfico-literário do site é impressionante, tem histórias ali que merecem ser transpostas para outras mídias.”
O processo de seleção, segundo a organizadora, tentou ser o mais justo possível.
“Escolhi os contos que receberam mais comentaristas, mas também os que mais pegaram o espírito do projeto. Claro que nisso, muitos autores seriam repetidos, então ficou o conto mais comentado de cada participante. Ao fim e ao cabo, acho que ficou uma seleção muito representiva do trabalho do site. Infelizmente, ficou muita gente boa fora. Mas o projeto não terminou.”
A coordenadora dá pistas sobre o futuro do site.
“Fechamos uma parceria com a rede social aoLimiar e todo o conteúdo do Letra e Video será migrado para um novo endereço, mais dinâmico, em breve. A partir daí, voltaremos a publicar textos novos e aceitar originais.”
Quanto a possíveis críticas à presença do seu conto entre os escolhidos, a autora usa de sua ironia habitual.
“Olha, criticar vão criticar mesmo. Vão dizer que só entraram pessoas ligadas a mim ou que eu favoreci fulano e sicrano. Nada que me faça perder uma noite de sono. Meu conto foi um dos mais comentados e por isso vai entrar.”
O conto selecionado foi ‘Finisterra’, uma história sobre navegadores e o fim do mundo.
“Como ficou claro, é um trecho de algo maior, bem maior aliás. É a introdução ao meu romance também chamado Finisterra.”
Ao ser perguntada se o romance também teria sido inspirado pela música, do grupo português de metal Moonspell, a autora reflete.
“É meio complicado de dizer, porque Finisterra está dentro de mim faz muito tempo. É meu livro eterno – talvez por isso esteja demorando tanto a sair – e reflete muita coisa dentro de mim. Minha essência portuguesa, por assim dizer. E o Moonspell é tão parte disso quanto Fernando Pessoa, Camões, Pero Vaz de Caminha, Julio Dinis, Amalia Rodrigues…”
Porém, o conto postado realmente nasceu da música.
“É sobre estar vivo no fim do mundo. Não no Apocalipse, que é uma tragédia, mas no fim da terra mesmo, do espaço físico. É ter o nada em cima, embaixo e aos seus lados… e de repente o nada vem e ataca.”
A versão a ser publicada será bem diferente do que está no site.
“Com certeza, o conto será ampliado, com aspectos que foram apontados pelos leitores e mesmo com coisas que acrescentei no romance posteriormente. Valerá a pena relê-lo impresso.”
E os demais autores?
“Aos pouquinhos, eles vão aparecendo por aqui.”